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Reza a
Lenda
... que há muitos, muitos anos... Houve em Portugal um ano de fome e peste,
que também atingiu os habitantes do “Couto Dornelas”. Foram tantos os mortos
que os mais crentes apelaram a São Sebastião para que os protegesse de tal
flagelo. Se a doença se afastasse, se os doentes melhorassem e os animais
escapassem, prometiam realizar anualmente a 20 de Janeiro, uma festa onde não
faltasse pão e carne para quantos a ela comparecessem. Como o Santo não
faltou, cumpriu-se o prometido e assim se fez ao longo dos tempos. Mas, com o
passar dos anos, o povo foi ficando esquecido e mal agradecido e, um ano não
se sabe bem porque motivo, a festa não se realizou. O povo ficou assim sem a
protecção do Santo, advogado da fome, da peste e da guerra......Conta ainda a
lenda, que em 1809 (ano em que Napoleão, Imperador da França, mandou invadir
pela segunda vez Portugal) as tropas entraram por Chaves a caminho do Porto,
passando pelas terras do “Couto Dornelas”. A má fama dos invasores já tinha
chegado às nossas gentes, que aterrorizados pela iminente invasão e suas
consequências (pilhagens, mortes e violações), saíram à rua com a imagem de
São Sebastião e acolhendo-se à sua protecção renovaram a promessa: Se os
invasores não entrarem em “Dornelas” faremos todos os anos no dia 20 de
Janeiro, uma festa em tua honra onde não faltará comida a toda a gente que a
ela vier. Dia a lenda que caiu tal nevão à volta de “Couto Dornelas” que
obrigou os invasores a desviarem-se do seu caminho deixando em paz estas
gentes. Lenda ou não, a verdade é que se tem mantido a tradição e todos os
anos a 20 de Janeiro os habitantes do “Couto Dornelas” renovam a promessa.
São
Sebastião – o Mártir
São
Sebastião é um dos mártires mais conhecidos da antiguidade. Historicamente
estão demonstrados: o seu martírio em Roma, no fim do século III ou
princípios do século IV, a sepultura nas catacumbas, a data antiquíssima (20
de Janeiro) da sua festa e a popularidade do seu culto desde o século IV, mas
principalmente desde a Alta Idade Média por ter sido tema entre os pintores
renascentistas que o representavam “atado à árvore nu e cravado com setas”.
O relato
do seu martírio (Passio Saneti Sebastiania) foi escrito século e meio depois
dos acontecimentos, baseado nas chamadas Actas de Santo Ambrósio. Julga-se
que São Sebastião era natural de Narbona ou Milão, oficial da Guarda
Imperial, em Roma, no tempo dos Imperadores Dioclecianos e Maximiano. Apesar
do seu cargo, converteu-se ao Cristianismo, difundiu a Fé e protegeu os
Cristãos necessitados, convertendo muita gente. Descoberto, foi sentenciado à
morte e supliciado com setas. Tido por morto, abandonaram-no os arqueiros.
Curado milagrosamente apresentou-se diante do Imperador proclamando a sua fé.
Este mandou-o açoitar até morrer, sofrendo por isso, um duplo martírio.
S.
Gregório Magno considera o soldado um mártir. São Sebastião é considerado o
terceiro Padroeiro de Roma, depois dos Santos Apóstolos Paulo e Pedro. Os
fiéis invocam-no, desde a antiguidade, como advogado “especial” contra as
pestes.
Antigamente
Eram nove
os Mordomos responsáveis pela realização da Festa de São Sebastião. Sendo
conhecida pela “casa” dos seus antepassados, cada um fazia a festa com
carácter rotativo, isto é, de nove em nove anos. Os Mordomos eram “a casa do
Pires”; “a casa do Barroso”; “a casa do Gervaz”; “a casa do João Afonso”; “a
casa do Virtelo”... Gradualmente algumas destas famílias foram desistindo, ou
porque se foram desagregando, mudaram de localidade ou mesmo por falta de
vontade.
Actualmente
Restam
cinco casas de Valentes que se aguentam firmes na sua missão de continuar a
tradição: Casa do Carreiras, Casa do Veras, Casa do Odilio, Casa do João
Afonso, Casa do Barroso.
Dois meses
antes da Festa
O Mordomo,
alguns “ajudantes” e “jeireiros” recolhem a lenha (giestas, torgos de urze e
pinheiro) que, mais tarde, será transportada para a “Casa do Santo”.
Em
Dezembro
É feita a
recolha do cereal e das esmolas (donativos em dinheiro), em cada casa da
freguesia.
No início
de Janeiro
O cereal é
moído em moinhos artesanais.
Na mesa
antes da Festa
Peneira-se
a farinha. Recolhe-se a carne de porco pelas aldeias da freguesia. Coze-se o
pão, tarefa penosa que ocupa sensivelmente dez pessoas, durante três dias e
duas noites.
Nos dois
dias antes da Festa
Parte-se a
carne, lava-se e põe-se de molho até ao momento em que irá a cozer. Lavam-se
os pratos e as tigelas de madeira que servirão para pôr o arroz e a carne na
mesa.
No dia da
Festa
A partir
da meia-noite acende-se o fogo e colocam-se os potes com a carne à volta da
fogueira. Por volta das nove horas, as carnes retiram-se dos potes e
colocam-se em caldeiras de cobre. Quando o sino toca para a missa, ao
meio-dia, mete-se o arroz nos potes na calda da cozedura da carne. No fim da
missa, sai a procissão da igreja para a “Casa do Santo”, onde o Padre benze a
carne, o pão e o arroz que, só depois é que serão servidos, levados por um
membro da comunidade para, ao longo da mesa serem venerados ou beijados.
Simultaneamente é feito um “peditório” onde se pode dizer que “quem mais dá,
mais amigo é do Santo”. A refeição comunitária pode dizer-se que é o fim da
Festa. Todos devem comer do pão, da carne e do arroz e, o que sobrar, até
poderão levar para dar a quem o apreciar, ou tiver fé no Santo.
Rezas para
pedir a Benção da Massa do Pão
São
Vicente te acrescente,
São
João te faça pão
Por
poder de Deus e da Virgem Maria,
Padre
Nosso e Avé Maria.
São Mamede te
levede
São
Vicente te acrescente
Eu
a comer e tu a crescer
Deus
te ponha a virtude, qu’eu da minha parte fiz o que pude.
“Um
Padre Nosso e uma Avé Maria pelas almas”.
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(Consultado em 20 de janeiro de 2013)
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